Monthly Archives: Agosto 2010

Mário de Sá Carneiro

“Pois bem! Eu consegui variar a existência – mas varia-la quotidianamente. Eu não tenho só tudo quanto existe…eu tenho também tudo quanto não existe…Eu vivo horas que nunca ninguém viveu, horas feitas por mim, sentimentos criados por mim, voluptuosidades só minhas e viajo em países longínquos, em nações misteriosas que existem para mim, não que as descobrisse, mas porque as edifiquei.Porque eu edifico tudo……De resto, é evidente faltam-me as palavras para lhe exprimir as coisas maravilhosas que não existem…Ah! O ideal…O ideal…Vou sonha-lo esta noite…Porque é sonhando que eu vivo tudo.Compreende? Eu dominei os sonhos. Sonho o que quero, vivo o que quero……Enfim, meu amigo…Eu sou feliz porque tenho tudo quanto quero e porque nunca esgotarei aquilo que posso querer. Consegui tornar infinito o universo – que todos chamam infinito, mas que é para todos um campo estreito e bem murado”

Azenha no rio Coura – Vilar de Mouros (s/data)

Barcelona – Parque de Montjuich (192_)

Timor – Ancião (postal não datado)

Timor – Aldeia (postal não datado)

Timor – Mulheres de Laga

PARIS – La Place de la Concorde vue du Palais-Bourbon et le Sacré-Coeur (1950)

Macau – Av. Alm. Ribeiro (195_)

Postal decorativo (inícios do século XX)

Postal alemão (1922) – Costumes

Ruins of St. Paul´s Church – Macau

Lugares de Portugal: Armazem de Novidades JOÃO CARDOZO, 64, Rua do Carmo, Lisboa

Lugares de Portugal – Parque de La-Salette – Oliveira de Azemeis (1911)

TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, não creio em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê –
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos

Music – Best of the last 30 years

Seleccione este “site” e ouça as 1.000 (mil) melhores musicas, para alguns, dos últimos 30 anos.

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
enfim,
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve ainda…

Mário Quintana

Cultura à mesa: Quinta da Pacheca

 

É sempre agradável a visita ao Douro interior!… O prazer da visita à QUINTA DA PACHECA é  um sentimento que os turistas que apreciam a cultura à mesa devem registar no seu roteiro.

Ficam aqui alguns endereços a serem consultados:

Quinta da Pacheca

Tribuna do Norte

O “Ti Zé da Rua”

A “Empresa Nacional de Chapelaria, Lda.” foi conhecida, no seu tempo, como a “Empresa”. Quantos dos habitantes de São João da Madeira e nas terras vizinhas se referem, nas suas conversas de família ou de café, à “Empresa”?

– Sim!… o meu bisavô trabalhou na “Empresa”.

A alusão em estudos interessantíssimos como o exposto no blog Sapcha_São João da Madeira é um exemplo de que a “Empresa” era uma referência “monumental” e “cultural” que surgia num meio até então agricolo.

Na Wikipédia, onde dos oito trabalhadores nada sabemos (?), encontramos uma foto cuja descrição passamos a expor:

Operários chapeleiros em volta de uma “Fula”, caldeira onde emanavam vapores ácidos e corantes utilizados para preparar e tingir os feltros finos. Em consequência de manusearem os feltros sem qualquer protecção, as unhas dos operários deterioravam-se tomando a tonalidade negra, pelo que eram conhecidos como “Unhas Negras”. Este trabalho árduo está imortalizado na obra “Unhas Negras” de João da Silva Correia.

Quem são estes “operários chapeleiros”? Haverá interesse em identificar os mesmos? Quem poderia ter esta informação? Será que nos arquivos da “Segurança Social” haverá registos dos “operários chapeleiros” que fizeram parte do quadro de pessoal da “Empresa”? E nos registos dos Sindicatos?

Não sabemos.

Em todo o caso as gentes da terra de São João da Madeira e das terras vizinhas, as mais antigas e já encamadas, quem sabe, possam dar uma ajuda a este desafio.

Fica aqui como exemplo desses “operários chapeleiros” o nome de “José Gomes de Bastos”, também conhecido por “Ti Zé da Rua”, encarregado na “Empresa”. Juntamos foto de “José Gomes de Bastos” que resultou duma dessas conversas de café e que nos autorizaram a colocar neste post.

Endereços que devem ser consultados:

http://www.cm-sjm.pt/410

http://museudachapelaria.blogspot.com/

Já que estamos no Verão…

… E não temos um sobreiro para nos proteger deste tempo, fica aqui a sugestão de consulta da obra:

 100 Livros Portugueses do Século XX, Uma Selecção de Obras Literárias, 2002, Amaral, Fernando Pinto, Instituto Camões, Lisboa.

http://cvc.instituto-camoes.pt/component/docman/doc_download/2178-100-livros-portuguesesdo-seculo-xx–100-portuguese-books-of-the-20th-century.html

Livros: Nova Gramática do Português Contemporâneo

De autoria de CUNHA, Celso; CINTRA, Lidney. Nova Gramática do Português Contemporâneo. editada no Rio de Janeiro pela Nova Fronteira, 2001, poderá ser acedida em formato pdf ou, claro, em qualquer livraria, biblioteca, …

Fica aqui o endereço para acesso a este documento: http://www.easy-share.com/1907652638/6042478-LINGUA-PORTUGUESA-GRAMATICA-CELSO-CUNHA.pdf

Livros: Introdução à História do Português

 

Introdução à História do Português (2.ª edição revista e muito ampliada)

Geografia da língua. Português Antigo

Sinopse:

A língua portuguesa não nasceu ao mesmo tempo em todo o enorme espaço que hoje ocupa, mas num pequeno território do canto noroeste da Península Ibérica, de onde se expandiu na direcção do sul. Não nasceu, como pensavam Alexandre Herculano e Leite de Vasconcelos, no centro de Portugal; não nasceu na Lusitânia, mas mais a norte, num território que vai continuadamente desde a Corunha, no extremo setentrional da Galiza, até à ria de Aveiro e ao vale do rio Vouga, que nela desagua. A população nativa, galega ou portuguesa, deste território fala a mesma língua que os seus antepassados nunca deixaram de aí falar.

Elementos colhidos no endereço de Edições Colibri.

http://www.edi-colibri.pt/Detalhes.aspx?ItemID=782

Citações

“Cuidado com a tristeza : é um vício”–FLAUBERT;
“O amor é uma noite a que se chega só”–TOLENTINO MENDONÇA
“Nunca ponhas um ponto final onde Deus pôs uma vírgula”–num cartaz à porta de uma igreja de Chicago

Tibães – pormenor

Serralves – Evasão dos sentidos

Feira Medieval em Caminha

Geometria em Tibães